Exposição inclusiva “Anãma Tapajós” recebe visita de pessoas cegas e com baixa visão em Santarém

“A arte tem que ser acessível e inclusiva”, destacou o artista visual Vítor Matos, responsável pelas obras.
Foto: Divulgação/Assessoria

Um grupo de cerca de 20 pessoas cegas e com baixa visão visitou, nesta sexta-feira (15), a exposição inclusiva “Anãma Tapajós: Histórias e Memórias Impressas no Barro”, no Centro Cultural João Fona, em Santarém. A ação reuniu integrantes da Associação Santarena para Inclusão de Pessoas Cegas e com Baixa Visão (ASSIC), que puderam conhecer um acervo composto por nove peças em alto-relevo, com recursos de audiodescrição desenvolvidos especialmente para garantir acessibilidade ao público. “A
arte tem que ser acessível e inclusiva”, destacou o artista visual Vítor Matos, responsável pelas obras.

O projeto foi realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) de Incentivo à Cultura, por meio da Secretaria Estadual de Cultura (Secult), com apoio da Secretaria Municipal de Cultura. No dicionário tupi-guarani, “anãma” é uma palavra que se refere à família, parentes, nação e povo.

A consultora em audiodescrição Andréa Simone Colares ressaltou a importância do recurso para ampliar a compreensão das obras por diferentes públicos. Segundo ela, a audiodescrição não beneficia apenas pessoas cegas, mas também pessoas com baixa visão, autistas, disléxicas e analfabetas. Andréa afirmou que a experiência vivida na exposição foi inovadora até mesmo para sua atuação profissional.

“Quando ouvi a audiodescrição ao mesmo tempo em que tocava as peças, consegui compreender melhor cada detalhe. Antes, eu conhecia esse recurso apenas na teoria, mas agora tive a oportunidade de vivenciá-lo na prática”, explicou. A consultora destacou ainda que levará essa experiência para futuras formações sobre acessibilidade cultural.

“A ideia de fazer uma exposição inclusiva surgiu da percepção sobre o alcance que a arte pode ter para as pessoas cegas e com baixa visão. Nós percebemos os elementos artísticos a partir de uma estética visual, mas, para esse público, a interpretação acontece por outros sentidos, principalmente pelo tato e pela audição”, explicou o artista Vítor Matos.

Segundo ele, o principal desafio foi desenvolver objetos artísticos que pudessem ser “lidos” por meio da experiência sensorial. “O desafio foi justamente construir obras que pudessem ser vistas e compreendidas por pessoas cegas e com baixa visão, ampliando o tato e complementando essa experiência com a percepção auditiva”, destacou.

Para o artista visual Vítor Matos, o projeto foi motivado pela necessidade de ampliar as práticas de inclusão e acessibilidade no campo artístico. “O que me incentivou foi realmente a questão da inclusão e da acessibilidade em todos os sentidos”, concluiu.

O presidente da Associação Santarena para Inclusão de Pessoas Cegas e com Baixa Visão (ASSIC), professor Jeter Rezende, afirmou que a visita busca incentivar pessoas cegas a frequentarem espaços culturais e também estimular organizadores de exposições a adotarem práticas de acessibilidade. Atualmente, a associação atende cerca de 50 pessoas entre estudantes, profissionais e integrantes já inseridos no mercado de trabalho.

“Nós somos vítimas de apaixonados pela palavra inclusão, mas precisamos de pessoas apaixonadas pela acessibilidade e pela promoção de práticas que garantam autonomia e cidadania às pessoas com deficiência”, afirmou.

Para a auxiliar de serviços gerais Viviane Miranda, de 47 anos, o retorno ao museu após décadas teve um significado especial. “Na primeira vez em que estive aqui, eu era muito nova e não tive a oportunidade de tocar ou experimentar os materiais. Hoje, essa experiência com as peças de barro será uma surpresa muito gratificante”, declarou.

Sabrina Kelly dos Santos está passando pela sua primeira experiência em visita a uma exposição de arte com recurso de audiodescrição. “É algo novo e um passo muito importante para mim. Gostaria de parabenizar o artista Vítor Matos, que teve a capacidade de produzir peças acessíveis, e espero que isso sirva de inspiração para outros artistas começarem a produzir materiais acessíveis”, afirmou.

Sobre a exposição e visitas guiadas — A mostra “Anãma Tapajós: Histórias e Memórias Impressas no Barro” apresenta um conjunto de 95 peças artísticas — entre remos em madeira, pinturas e tecidos — que evidenciam as relações entre memória, território e ancestralidade, a partir da cerâmica como linguagem artística e expressão cultural. A exposição propõe ao público um mergulho sensível nas narrativas visuais que atravessam saberes e identidades amazônicas.

A mostra segue aberta à visitação no Centro Cultural João Fona, na orla de Santarém, até o próximo dia 22 de maio, no horário de 8h às 18h, de segunda a sexta-feira. Grupos escolares podem agendar visitas por meio do e-mail: centroculturaljoaofona.semc@gmail.com

Por: Lenne Santos

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