A melhor atriz, de fato, acabou preterida por Mikey Madison, que ainda tem muito a aprender – em especial que gritaria não é a chave de uma boa interpretação; leia análise

Opinião por Luiz Zanin Oricchio
Para o cinema brasileiro foi um dia histórico. Afinal, o tão desejado Oscar acabou vindo para o País. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, ganhou a estatueta de Melhor Filme Internacional e quebrou o tabu que parecia fazer o cinema brasileiro incompatível com o Oscar.
Verdade que havia esperanças também na eleição de Fernanda Torres como Melhor Atriz e mesmo de Ainda Estou Aqui na categoria principal, a de Melhor Filme. Nenhuma das duas se concretizou, mas é claro que o cinema brasileiro conquistou uma grande vitória neste domingo de carnaval.
Enfim, é preciso pesar as coisas com imparcialidade. Na categoria Melhor Filme, Ainda Estou Aqui estava entre os três melhores da lista de dez, acompanhado por Conclave e O Brutalista. Já na categoria Melhor Atriz, se fossemos levar em conta apenas a qualidade de interpretação, não haveria páreo para Fernanda Torres. Nem Cynthia Erivo, de Wicked, nem Karla Sofia Gascón, de Emilia Pérez, nem Demi Moore, de A Substância, e muito menos Mikey Madison, de Anora, eram melhores que Fernanda.

Digno de nota, também, o desempenho final de Emilia Pérez, que começou na condição de favorito com suas treze indicações e acabou por emplacar apenas duas – Zoe Saldaña, como atriz coadjuvante, e canção (El Mal). Provavelmente sua campanha foi esvaziada pela polêmica que ferveu nas redes sociais e determinou o cancelamento da atriz espanhola Karla Sofia Gascón por antigos tuítes de teor racista e xenófobo.
De resto, achei acertada a vitória do longa de animação da Letônia Flow que, com sua simplicidade, derrotou pesos-pesados como Divertida Mente 2 (22 milhões de espectadores só no Brasil) e também o bonito e amoroso O Robô Selvagem, tido como favorito por muita gente. Flow conta a história de um gato que, surpreendido por um dilúvio, precisa esquecer o medo da água e também unir-se a antigos rivais para sobreviver num mundo desolado. A mensagem é clara e transmitida de maneira simples. O desenho é bonito e o filme não tem diálogos. Nem precisa.
Na categoria documentário também a premiação me pareceu justa. Venceu No Other Land, que já tem título no Brasil de Sem Chão. Refere-se à invasão dos territórios palestinos por Israel naquele infindável martírio que acontece no Oriente Médio. A premiação e a entrega dos prêmios foi o momento mais político numa festa que preferiu ignorar os primeiros movimentos do governo Trump com suas ameaças à democracia norte-americana e ao que resta de estabilidade no mundo.

Resultado expressa mudanças no Oscar
Por outro lado, o resultado do Oscar 2025 expressa a série de mudanças que vêm ocorrendo na Academia de Hollywood. Com a ampliação do colégio eleitoral, que hoje chega a mais de 10 mil membros, e sua maior internacionalização, o prêmio vem se tornando menos provinciano – e também mais imprevisível. A própria premiação do brasileiro Ainda Estou Aqui pode ser fruto dessas mudanças.
Mudanças que ocorrem, mas não a ponto de tornar a festa de fato internacional. Ela continua a ser profundamente norte-americana, auto-celebratória e ainda muito centrada em sua própria indústria. Faz uma ou outra concessão, mas mantém o controle sobre o essencial. A própria eleição de uma jovem promissora como Mikey Madison é sintoma disso. Talentosa, Mikey ainda tem muito a aprender – em especial que gritaria não é a chave de uma boa interpretação. Mas Hollywood tem uma queda por jovens de futuro assim como por veteranas saídas do ostracismo.
Espremida entre a jovem promissora, Mikey Madison, e a veterana que deu a volta por cima, Demi Moore, a melhor atriz de fato, que era Fernanda Torres, acabou por ser preterida como sua mãe, Fernanda Montenegro, também o foi, 26 atrás, em favor da insossa Gwyneth Paltrow.
Paciência. A hora não é de reclamar e sim de comemorar a estatueta de filme internacional concedida a Walter Salles e seu Ainda Estou Aqui. Muito ainda há de se falar desse filme e do estranho fenômeno que promoveu ao fazer o tão dividido público acompanhar o Oscar como se fosse uma final de Copa do Mundo.

Opinião por Luiz Zanin Oricchio – É jornalista, psicanalista e crítico de cinema
Fonte: Estadão
