A memória fotográfica dos 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás

No dia 17 de abril, o massacre completou três décadas sob uma sombra que o tempo não conseguiu dissipar. Em 1996, o que deveria ser uma marcha por terra e dignidade transformou-se numa das principais injustiças contra camponeses que reivindicam o direito à terra, com a morte de 21 agricultores. 
Legista identifica uma das vítimas do massacre no pátio do IML de Marabá, Pará

Por José Cícero – Agência Pública

No dia 18 de abril de 1996, o fotógrafo carioca João Roberto Ripper, hoje com 73 anos, desembarcou no sudeste do Pará com uma passagem comprada pela sogra, 100 reais no bolso e uma missão de registrar uma das maiores matanças no campo na história do país: o massacre de Eldorado dos Carajás. “Quando eu soube que era um massacre com aquelas proporções, pelo que eu já documentava, eu sabia a importância que tinha”, conta.

Fotógrafo João Roberto Ripper sentado segurando uma câmera
Registros de João Roberto Ripper foram fundamentais para comprovar a gravidade do massacre ocorrido há 30 anos, no Pará. Todas as fotos que ilustram essa matéria fazem parte do Acervo João Roberto Ripper, um projeto associado ao ICICT/Fiocruz

Neste 17 de abril, o massacre completa três décadas sob uma sombra que o tempo não conseguiu dissipar. Em 1996, o que deveria ser uma marcha por terra e dignidade transformou-se numa das principais injustiças contra camponeses que reivindicam o direito à terra, com a morte de 21 agricultores. Um episódio que redesenhou a luta agrária no Brasil e expôs a faceta da violência contra camponeses no sudeste paraense.

Naquele outono de 1996, cerca de 1.500 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acampavam na região do “S” — uma curva acentuada na estrada que liga Curionópolis e Eldorado dos Carajás. O objetivo era marchar até Belém para pressionar pela desapropriação da Fazenda Macaxeira, considerada improdutiva.

A resposta do Estado, sob o governo de Almir Gabriel (PTB), foi o envio de 155 policiais militares. O que se seguiu foi uma operação marcada por irregularidades: policiais sem identificação nas fardas e armados com fuzis e submetralhadoras contra trabalhadores que portavam, no máximo, ferramentas de trabalho.

A ação resultou na morte de 19 pessoas no local e duas que faleceram dias depois devido aos ferimentos. A perícia revelou uma brutalidade que chocou observadores internacionais: muitos dos trabalhadores foram executados à queima-roupa ou por instrumentos cortantes. As fotos de Ripper foram fundamentais para a perícia. 

Apesar da repercussão global, dos 155 policiais envolvidos, apenas os comandantes da operação — o Coronel Mário Colares Pantoja e o Major José Maria Pereira Oliveira — foram condenados a penas de reclusão, que começaram a ser cumpridas em 2012, 16 anos após o episódio.

A data do massacre transformou-se no Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Mais do que um marco sobre o luto, tornou-se um símbolo de resistência. O local do crime hoje abriga o “Assentamento 17 de Abril”, onde os sobreviventes e seus descendentes cultivam a terra que custou tanto sangue.

Por que isso importa?

  • No Brasil, de 1985 até os dias atuais, já ocorreram 59 massacres no campo, com 302 mortes. Os dados são da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
  • Segundo o MST, o Pará, em 2026, segue como o estado brasileiro líder em conflitos no Campo.

As fotografias de Ripper mostram uma imersão no massacre de Eldorado dos Carajás guiado pelo que ele chama de “fotografia compartilhada”, ou “fotografia do bem-querer” — uma prática onde a câmera é um elo de dignidade. Durante dez dias, entre alojamentos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), acampamento do MST e o silêncio dos velórios, ele documentou corpos marcados por tiros à queima-roupa e golpes de foice. Suas lentes registraram a brutalidade das mãos cortadas que tentavam proteger rostos, imagens que serviram como peças fundamentais para confrontar a versão oficial do Estado.

  • Legista identifica uma das vítimas do massacre no pátio do IML de Marabá, ParáLegista identifica uma das vítimas do massacre no pátio do IML de Marabá, Pará
  • Transporte dos caixões dos trabalhadores assassinados de Marabá para CurionópolisTransporte dos caixões dos trabalhadores assassinados de Marabá para Curionópolis
  • Familiares e militantes enfileiram os caixões de seus companheiros em frente ao Incra de Marabá, em protesto contra a violência e pela Reforma AgráriaFamiliares e militantes enfileiram os caixões de seus companheiros em frente ao Incra de Marabá, em protesto contra a violência e pela Reforma Agrária
  • Velório das vítimas do massacre, em CurionópolisVelório das vítimas do massacre, em Curionópolis
  • Familiares e militantes carregam os caixões de seus companheiros caídos em uma longa caminhada até o local do enterro em CurionópolisFamiliares e militantes carregam os caixões de seus companheiros caídos em uma longa caminhada até o local do enterro em Curionópolis
  • Familiares e militantes carregam os caixões em uma longa caminhada até o local do enterro, em CurionópolisFamiliares e militantes carregam os caixões em uma longa caminhada até o local do enterro, em Curionópolis

“Já tinha sido feita uma autópsia, mas foi uma autópsia totalmente fajuta, de quem não queria descobrir nada. Então, o pessoal do governo, da parte dos direitos humanos, pediu (…) uma nova autópsia. Estávamos lá alguns fotógrafos e ele perguntou (…) faria as fotos que serviriam como prova. E aí eu fiz”, conta Ripper.

Três décadas depois, Ripper — um mestre em capturar a beleza das comunidades tradicionais — revisita a memória daquele “asfalto de desamor”. Nesta entrevista, ele reflete sobre a dor de fotografar chorando, a “hipocrisia da imparcialidade da imprensa” e como, mesmo diante da morte, a teimosia em ser feliz e a luta pela terra permanecem como as maiores bandeiras de camponeses.

Abaixo os trechos mais importantes da entrevista de João Roberto Ripper concedida à Agência Pública.

Na semana que antecedeu o dia 17 de abril, em qual pauta você estava trabalhando? Você já estava na região?

Quando eu soube que era um massacre com aquelas proporções, pelo que eu já documentava, eu sabia a importância que tinha. Eu não sabia o quanto iria repercutir, mas que era uma coisa de fundamental importância e um absurdo de proporção descomunal, eu sabia.

Eu ia sempre para aquela região, documentei várias vezes, mas eu não estava na região quando aconteceu [o massacre]. Quando fiquei sabendo, comecei uma maratona de buscar condições para ir. Na época, a mãe da minha companheira comprou a passagem para mim emprestado, e eu fui para lá com 100 reais.

Cheguei lá no dia seguinte. Já tinha sido feita uma autópsia, mas foi uma autópsia totalmente fajuta, de quem não queria descobrir nada. Então, o pessoal do governo, da parte dos direitos humanos, pediu para o Nelson Mancini, o legista, fazer uma nova autópsia. Estávamos lá alguns fotógrafos e ele perguntou para o [Sebastião] Salgado, que infelizmente não está mais conosco, quem faria as fotos que serviriam como prova. E aí eu fiz.

É claro que consegui documentar ainda algumas outras coisas, mas fiquei muito preso a documentar todas as pessoas que tinham sido assassinadas e todos os detalhes do assassinato.; A maioria das pessoas foi morta depois de levar tiro, tanto que muitos tiveram as mãos cortadas, porque botavam a mão para se proteger. Eu documentei todos os detalhes, de todas as pessoas.

E essas fotos não eram um trabalho que eu podia fazer profissionalmente, porque você não pode entregar para imprensa uma coisa que você já sabe que tinha pedido, então eu fiz a documentação e encaminhei toda ela para apuração de um processo que foi contra o governo do Estado do Pará e contra a Polícia Militar. As fotos serviram para isso.

Depois foi feita toda uma nova autópsia, os corpos dos trabalhadores assassinados foram colocados de novo no caixão e em cima de caminhões. Os fotógrafos se dividiram e a gente foi parar na sede do Incra em Marabá. Lá os caixões foram retirados, colocados no chão, e aconteceu uma manifestação em frente ao órgão.

Depois a gente seguiu para o velório, que só acabou na noite do outro dia, e os corpos foram levados para o enterro, no “muque” [no braço]. Os trabalhadores levaram todos os caixões e, então, foi feito o enterro.

Quando você chegou na região, qual foi a primeira imagem que te fez entender a dimensão daquele massacre?

Toda a situação porque foi uma violência muito grande. Eu já tinha fotografado assassinatos, violências, mas eu nunca tinha fotografado um massacre. E depois a gente, infelizmente, vê que tem mais que denunciar mesmo. O número de pessoas, nos anos seguintes, que defendiam o massacre me assustou.

Eu acho que quando a gente faz um processo de documentação, a gente não pode se furtar de mostrar as mazelas, mostrar os absurdos que acontecem, como também não deixar de mostrar as belezas que acontecem com essas mesmas populações que sofrem os massacres.

Então você vê pessoas perseguidas, pessoas que são mortas, pessoas que resistem, por exemplo, entre as populações tradicionais, entre os trabalhadores rurais, o MST, em inúmeras vezes a gente já viu trabalhadores que foram assassinados.

Você ficou quanto tempo circulando na região?

Eu fiquei mais ou menos 10 dias, eu tinha que encaminhar as fotos, tinha que fazer as reportagens, sair, e também fui muito quebrado de dinheiro.

Eu sempre tive a parceria com as organizações de direitos humanos, então se precisasse, dormia na Comissão Pastoral da Terra, num alojamento do MST, isso sempre fez parte e foi assim que eu fui esticando.

  • Familiares e militantes enfileiram os caixões dos trabalhadores assassinados ao lado das covas, em CurionópolisFamiliares e militantes enfileiram os caixões dos trabalhadores assassinados ao lado das covas, em Curionópolis
  • Familiares e militantes erguem os caixões para descê-los nas covasFamiliares e militantes erguem os caixões para descê-los nas covas
  • Familiares e militantes cobrem de terra as covas ao final do enterroFamiliares e militantes cobrem de terra as covas ao final do enterro
  • Esposa de um dos trabalhadores assassinados se emociona diante dos caixões enfileiradosEsposa de um dos trabalhadores assassinados se emociona diante dos caixões enfileirados
  • Trabalhador rural apóia mão sobre uma antiga lápide durante o sepultamento dos 19 companheiros assassinados no massacreTrabalhador rural apóia mão sobre uma antiga lápide durante o sepultamento dos 19 companheiros assassinados no massacre

Repostado do Blog de Gerson Nogueira

Deixe uma resposta