Festival do Sairé, em Alter do Chão, recebeu projetos da Ufopa que conectam ciência e saberes tradicionais, de 18 a 22 de setembro.

A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) marcou presença no tradicional Festival do Sairé, realizado de 18 a 22 de setembro na vila de Alter do Chão, a 27 km de Santarém. Na Casa Santarém, da Prefeitura Municipal, o estande institucional da Universidade se tornou um ponto de convergência entre o conhecimento científico e o público, apresentando uma variedade de projetos inovadores que despertaram a curiosidade de turistas e comunidade local.
Sob o tema central de popularização da ciência, estudantes e pesquisadores exibiram trabalhos que vão desde o aproveitamento total de frutas regionais até o uso de fungos para biorremediação e o resgate de alimentos tradicionais indígenas.
Cogumelos, vinhos e jogos: a biotecnologia a serviço da sociedade – Loane Almeida, do 6º semestre de Biotecnologia, explicou que o objetivo era mostrar a diversidade da pesquisa produzida no Laboratório de Micologia e Bioensaios. “Queremos mostrar que os fungos não são apenas os bolores dos pães, só coisa ruim. O fungo pode ser um cogumelo comestível, tóxico, ou pode se tornar um biorremediador para matar pragas agrícolas e domésticas, entre outras coisas”, destacou. Para atrair o público infantil, a equipe também levou jogos educativos, promovendo integração e aprendizado.

Foto: Lenne Santos
18/09/2025.
Já a estudante Sônia Carvalho, do 9º semestre do mesmo curso, apresentou uma inovação gastronômica: o vinho de açaí tinto seco. “É um vinho porque as características científicas dele se comparam muito ao vinho tinto de mesa, mas tem apenas 2% de teor alcoólico. Ele possui potenciais antioxidantes, vitaminas K e C, e minerais como cálcio e ferro”, explicou. O diferencial da pesquisa está no aproveitamento integral do fruto: “Utilizamos 100% da polpa e 20% do caroço na fermentação, para aproveitar o potencial total que o açaí tem”. O projeto é desenvolvido em parceria com a In Tap e a Embrapii.
Da floresta para o mundo: andiroba e o empoderamento comunitário – A extensão universitária também teve espaço de destaque. A vida na comunidade de São Domingos, na Floresta Nacional do Tapajós (Flona), mudou após o contato com pesquisadoras da Ufopa. Marcilene da Silva Costa, da Associação dos Produtores de Óleo de Andiroba Quatro Irmãos (ASPRODAPI), contou sua experiência. Antes, o grupo beneficiava apenas o óleo de andiroba. Com o apoio da Universidade, desenvolveram uma linha de produtos como sabonetes e incensos, e melhoraram o processo de beneficiamento. “A universidade, com certeza, fez a diferença na minha vida. Estou muito feliz de estar aqui”, comemorou.
Farofa de saúva: tradição indígena e alimento sustentável – Um dos destaques que chamou a atenção dos visitantes foi a degustação de farofa de saúva, uma espécie de formiga amazônica. A ação faz parte do projeto “Formigas Amazônicas como Recurso Alimentar Sustentável”, coordenado pela prof.ª Dra. Iracenir Santos. A estudante indígena Glena Batista, do 8º semestre de Biotecnologia e originária da aldeia Papagaio (etnia Tupinambá), explicou o significado cultural do alimento. “Lá a gente come num momento de partilha, de união, de confraternização. E ela não é só um alimento. Segundo a minha avó, também serve para a circulação sanguínea, é depurativa do sangue. Então, se a avó falou, deve ser verdade”, afirmou, reforçando a confiança nos saberes ancestrais.

Foto: Lenne Santos. 19/09/2025
De acordo com o projeto, análises demonstram que a formiga Atta laevigata possui elevado potencial como alimento alternativo, unindo segurança nutricional, sustentabilidade ambiental e relevância cultural. Dados da FAO/ONU indicam que dois bilhões de pessoas em todo o mundo já consomem insetos.
Empreendedorismo que nasce na Universidade: A startup Mahá, nascida no ambiente de inovação da Ufopa, também marcou presença na Casa Santarém. Utilizando óleos e manteigas nativos, a empresa transforma ingredientes regionais em biocosméticos capilares de alta qualidade, demonstrando como a ciência e o empreendedorismo podem agregar valor à biodiversidade amazônica. “A participação foi uma oportunidade de fortalecer a ideia da Amazônia como território de conhecimento e inovação, mostrando o caminho desde a pesquisa universitária até produtos sustentáveis que carregam a identidade local”, destacou Melissa Monteiro, uma das fundadoras da Mahá.
Interação e diagnóstico ambiental – A engenheira florestal Ana Paula da Silva, vinculada ao Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração do Oeste do Pará (POPA), avaliou positivamente a receptividade do público. “Foi muito boa, principalmente com a herpetologia – cobras, sapos etc. As pessoas têm curiosidade de tocar, saber os hábitos, tirar dúvidas se o animal é venenoso. Para mim, foi bem interessante”.
A turista Thais Helena de Sousa, de Pouso Alegre (MG), aprovou a iniciativa. Ela considerou “maravilhoso” a Universidade sair de seus limites e apresentar os projetos no festival, embora tenha brincado reclamando da falta de “lembrancinhas para levar para casa”.
Além da exposição, a Ufopa também está atuante na pesquisa local. Sâmela Nascimento, do curso de Engenharia Sanitária e Ambiental e integrante do Grupo de Estudos Avançados em Gestão Ambiental na Amazônia (GEAGAA), está envolvida no diagnóstico socioambiental do Lago Verde, um dos pontos turísticos mais procurados em Alter do Chão. “Buscamos fazer uma avaliação do contexto ambiental, identificar as pressões humanas, a questão do uso e ocupação do solo e a qualidade da água. Essa análise integrada é crucial para identificarmos a origem dos impactos que já observamos”, explicou.
Universidade e cultura em diálogo – O Diretor de Cultura da Ufopa, Jefferson Dantas, ressaltou a importância da participação da instituição no evento. “Estar presente em um evento dessa magnitude demonstra como a universidade pode e deve se integrar aos festivais culturais da região. O estande, na Casa Santarém, em Alter do Chão foi mais do que um espaço de exposição: foi um espaço de diálogo, de troca e de encontro. Isso fortalece a relação entre a universidade e a comunidade, aproximando a produção acadêmica da vida cultural do território”, afirmou.
Ele destacou também a importância dessa experiência para os discentes, docentes e técnicos. “Eles puderam vivenciar o Sairé de dentro, reconhecendo-se como parte das tradições e sentindo-se pertencentes a essa rica diversidade cultural amazônica”.
A participação da Ufopa no Sairé, por meio do projeto “Ufopa, saberes que nascem com o povo: Cultura, Ciência e Comunidade em Festa”, da Pró-Reitoria da Cultura Comunidade e Extensão (Procce), reforçou o compromisso da instituição em dialogar com a sociedade, mostrando que a ciência feita na Amazônia é uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento sustentável, a inovação e a valorização da cultura regional.
“O nosso estande só foi possível graças à articulação e à parceria com a Prefeitura de Santarém, por meio da Secretaria de Cultura e da Secretaria de Turismo, que caminharam junto conosco para viabilizar esse espaço. Essa presença fortalece a relação entre a universidade e a comunidade, aproximando a produção acadêmica da vida cultural do nosso território”, afirma Jefferson Dantas, diretor de Cultura e Comunidade da Ufopa.
Lenne Santos /Ascom Ufopa
